Boas tardes, Nassif e João.

João, você goza de grande credibilidade no meio acadêmico por seus méritos, e mais recentemente na esquerda brasileira por sua grande contribuição ao externar suas análises do cenário político brasileiro. Parabéns, João.

Todavia é de grande importância para a reflexão e o debate público que as ideias sejam discutidas. É o que vou fazer agora lançando minhas dúvidas acerca de sua opinião quanto ao Bolsonaro, em especial quando você diz que os homens mais importantes do país concordam que ele deve ser mantido em prisão domiciliar gozando de benefícios dos quais não gozam centenas de milhares de presos, todos condenados por crimes menores do que os crimes cometidos por ele.

Para o que tenho a expor é preciso fazer uma breve invocação à máxima de que a luta contra a ditadura e toda espécie de abuso é a luta contra o esquecimento. Por isso faz-se necessária uma breve incursão nos primórdios da formação do estado e do ordenamento jurídico que rege o povo que o constituiu, e é por aqui que iniciarei.

O povo nunca deve esquecer que um golpe ou tentativa de golpe de estado é um crime que se comete contra o povo, contra o governo, contra o estado e contra a própria democracia em termos abstratos, nessa ordem de relevância. Observe que essa afirmativa é categórica pois não se trata de opinião e sim de interpretação sistemática do direito vigente expresso na Constituição, no Código Penal Brasileiro e em toda a legislação infraconstitucional correlata que compõe todo o ordenamento jurídico do país. Apenas no que se refere à ordem de importância eu coloquei o resultado de minha interpretação particular da legislação em vigor, e justifico. Em primeiro lugar em ordem de importância eu elegi o povo porque o que define o Estado como nação é a presença de povo, governo e território, e dentre esses três elementos fundantes o povo é o único dotado de        “anima”, formado por mulheres e homens importantes com vontade própria, capaz de formar governos para reger a vida social dentro das delimitações do território onde a sociedade pulsa.

A cautela é sempre bem vinda, o medo não.

A tentativa de golpe de estado qualificada por ter em seu bojo o plano de assassinar o Presidente da República, o vice-Presidente da República e um membro do Supremo Tribunal Federal, foi orquestrada por Bolsonaro porque, segundo uma miríade de vozes consensuais, aqueles que atentaram contra o estado em 1964 e submeteu o país a uma sangrenta ditadura não foram julgados e punidos segundo a legislação vigente. Fez-se uma legislação especial às pressas – a Lei da anistia - para que eles ficassem ao largo de serem responsabilizados por seus crimes antes e durante a ditadura.

 No presente caso, estando o país em um regime democrático, o Bolsonaro foi processado regularmente, o que quer dizer que dentro das leis que regem o processo ele exerceu o direito de se defender com todos os meios e recursos disponíveis e foi julgado por uma corte independente e isenta que concluiu pela sua culpa, em sentido amplo porque para a sua penalização exige-se o dolo e este foi encontrado na fase investigativa e instrutória do processo.

Pois bem, agora, passados os perrengues que nos deixaram todos apreensivos, e tendo sido o Judiciário, na verdade o STF, provocado pelo Ministério Público Federal por intermédio do Procurador Geral da República e ambos trabalhado incessantemente para levar a bom termo a denúncia do crime o Bolsonaro foi condenado e está na hora de cumprir a sua pena como todos os demais presidiários condenados no país. Então, resumindo, temos o crime, o criminoso, a denúncia, o processo, o julgamento e a condenação, tudo em um ambiente democrático.

A minha pergunta é: nós sofremos e trabalhamos todos por Justiça como nunca havíamos feito antes para agora ceder aos herdeiros do golpe de 1964, em especial ao Jair Bolsonaro, um benefício a que ele não tem direito e puni-lo pela metade por medo dele ser martirizado? Pode-se dizer com acerto que a Lei da anistia feita pela ditadura foi aceita pela nossa vontade de restaurar a democracia e o nosso medo de que ela fosse prorrogada. Porém estávamos sob um regime de exceção, um regime que tem dentre suas ferramentas de governo o amedrontamento, mas agora, em 2025, século XXI, nós estamos no governo e em um regime democrático. Então eu pergunto: o que nos falta para ter coragem? É sabido que ceder à chantagem é estar eternamente nas mãos do chantageador. E então o que nos garante que depois da prisão domiciliar ora proposta como oferenda de mão beijada de nós aos nossos algozes não nos será exigida a anistia, depois a recuperação da elegibilidade e até a reeleição do condenado Bolsonaro? O que tem eles a perder para, vendo o nosso medo e nossa fraqueza, não exigir de nós esses benefícios indevidos?

Um grande abraço.

 

Anselmo José

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